Domingo, 15 de Março de 2009

FOTO de Albano Nascimento
De Tupamaro a 15 de Março de 2009 às 00:41
“DEDICATÓRIA”
Eram crianças.
De tranças, uma; de calções curtos, outra.
O sol da Primavera sorria, e ambas corriam à roda do Cruzeiro, ao «apanhei-te».
Quando estafados de tanta correria, sentavam-se no degrau de cima.
Da varanda da casa em frente, a avó de uma e madrinha de outra regalava-se de as ver brincar cheiinhas de felicidade.
Tão contente, e como a querer fazer parte da brincadeira, dizia-lhes, em voz alta e meiga, para terem cuidado e não esmurrarem os joelhos.
Uma tia das duas atravessou o Largo, saudou a avó e meteu-se com elas:
-“Que lindo par de jarras”!
As crianças, feitas desentendidas, ou não ouviram, disseram uma à outra:
-“Vamos a outra corrida”?!
A Dália e o Albino pincharam os três degraus e desataram a correr à volta do Cruzeiro - às vezes, enviesando para uma volta ao tanque, ali ao lado.
O pai de uma era Guarda Fiscal; o de outra, Guarda Republicana.
Ele e ela sentiam-se presos um pelo outro.
Feita a 4ª classe, ela foi para o Colégio da Srª. da Bonança; ele para o Seminário das Santas Tempestades.
Passaram a ver-se de relance nas Férias Grandes, pois as férias pequenas eram curtas e roubadas pelos retiros espirituais.
No noviciado, ele rasgou o direito canónico; ela despiu o hábito de Clarissa.
Na Primavera passada, ele voltou à Aldeia.
Naquela 5ª.fª santa à tarde saiu de casa em direcção ao Cruzeiro. Ao entrar no Largo notou um estranho silêncio, confirmado pelo estardalhar de uns pardalecos dispersos pelos telhados.
Nem vivalma!
Pareceu-lhe que o estilhaço de granada, apanhado numa missão ao Cafunfo, lhe estava a cortar mais p’ra dentro o osso da perna direita. Titubeou. E a bengala bateu com mais força na calceta.
Logo de seguida, sentiu aquela picada no peito, ali pelo sítio onde a bala do “turra”, lá na Picada de Nambo, lhe furou o pulmão esquerdo.
Naquele momento, pareceu-lhe ver donde vinha a bala.
O olhar bateu naquela varanda donde a madrinha outrora se deliciava com as correrias da sua infância.
Sentada numa cadeira de espaldar, lá estava uma senhora.
Pareceu-lhe conhecê-la.
E quando os olhares se cruzaram teve a certeza de quem era.
Ele ficou abraçado ao Cruzeiro.
Ela abraçada à sua cruz.
Do campanário de S. Valentim soaram as últimas badaladas da Vida.
Tupamaro
O meu largo, o meu cruzeiro (cruz), o meu bairro, a minha casa, o meu encanto, a minha nostalgia e a minha saudade da minha meninice.
Obrigado.
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